É PORQUÊ OS CHINESES SÃO…CHINESES?

janeiro 27, 2010admin No Comments »
china

Desenvolvimento na lógica da Nova Economia rima com pesquisa científica desenvolvida. Não é retundância. É fato.

O Tony Volpon me enviou ontem, 26, essa matéria publicada no FT. No e-mail ele escreve apenas “China…”. Eu respondi que deveria ter escrito “China!!!”.
Reproduzo mais abaixo o texto da matéria.

É uma interessante comparação da pesquisa científica entre os BRICs e aponta, como já deixa claro o título, o quanto a China vem se distanciando da Índia, Rússia e Brasil. Tece comentários sobre a Índia e a Rússia, mas do Brasil apenas comenta as áreas de concentração.
Com referência à China vale ressaltar o trecho abaixo:
“Segundo o Sr. Wilsdon, três fatores principais orientam a pesquisa chinesa. Primeiro é enorme investimento do governo, com aumentos de financiamento muito acima da taxa de inflação, em todos os níveis do sistema das escolas até a investigação de pós-graduação.
Em segundo lugar está o fluxo organizado de conhecimentos da ciência básica para aplicações comerciais. O terceiro é a maneira eficiente e flexível em que a China está aproveitando o conhecimento da sua vasta diáspora científica na América do Norte e Europa, tentando trazer de volta cientistas de carreira média estimulando-os passar parte do ano trabalhando no oeste e parte da China . “

Realmente o estudo comparado da pesquisa científica não é meu chão. Já temos por aqui quem faça, e bem, esse trabalho. Cito como exemplo o Blog “Ciência Brasil”. A mim interessa é o quanto isso interfere no desenvolvimento.
Sabemos todos que a formação de conhecimento é o investimento mais importante nessa nova economia que se desenha para o futuro e o resultado concreto do trabalho de pesquisa científica é a formação e acúmulo de conhecimentos que irão estimular e fundamentar nosso desenvolvimento.
Alguns teóricos da questão ambiental já defendem para os países do centro o chamado “zero ground”, o crescimento zero como forma de reduzir o impacto ambiental do atual modelo de indústria e consumo. Certamente, com tantas complexidades, com nossa pirâmide de concentração de renda, nossa pobreza, nosso projeto de desenvolvimento, mesmo que tenha que mirar novos paradigmas, não poderá ser o zero ground.

Acreditem. Essa é uma leitura bastante instrutiva.

Demetrio Carneiro

China se prepara para liderança global nas pesquisas científicas

A China tem experimentado na pesquisa científica maior crescimento que qualquer país nas últimas três décadas, de acordo com dados do Financial Times, e o ritmo não mostra sinais de desaceleração.

Jonathan Adams, Diretor de Avaliação de Pesquisa da Thomson Reuters(1), disse que o crescimento “inspirador de respeito” da China significava que ela é agora o segundo maior produtor de conhecimento científico e estava a caminho de ultrapassar os E.U.A, em 2020, se continuar nessa trajetória.

A Thomson Reuters, que indexou “papers” de 10.500 revistas científicas, analisou o desempenho dos quatro países dos mercados emergentes – Brasil, Rússia, Índia e China – durante os últimos 30 anos.

A China agora superou todas as outras nações, com um aumento de 64 vezes na revisão comparativa de artigos científicos desde 1981, com uma força especial em química e ciência dos materiais.

“A China está, por sua própria conta, muito à frente do bloco”, disse James Wilsdon, diretor de ciências políticas na Royal Society(2), em Londres.

“Se significa alguma coisa, o desempenho recente da China em pesquisas ultrapassou até as expectativas de quatro ou cinco anos atrás, enquanto a Índia não se moveu tão rápido como o esperado e pode ter perdido uma oportunidade.”

Embora ainda não tão interativa, a pesquisa chinês também se tornou mais colaborativa, com quase 9 por cento dos papéis originários da China, tendo pelo menos um autor norte-americano.

“Nós estamos vendo mais do que o crescimento de uma forte base de investigação interna”, disse Adams. “As redes regionais de colaboração científica estão se desenvolvendo rapidamente, particularmente na região da Ásia-Pacífico.”

O Brasil também está construindo um formidável esforço de pesquisa, especialmente em agricultura e ciências da vida. Em 1981 a sua produção de artigos científicos foi 1/7 da Índia, em 2008 ele tinha quase alcançado a Índia.

A Rússia, que tem sido vista como um líder na investigação científica, produziu menos papéis que o Brasil ou a Índia em 2008.

Apenas 20 anos atrás, nas vésperas da desintegração da União Soviética, a Rússia foi uma superpotência científica, realizando mais pesquisas que a China, a Índia e o Brasil juntos.

Desde então, ele foi deixado para trás, não só pelo mundo, batida pelo crescimento da ciência chinesa, mas também pela Índia e pelo Brasil.

Grandes mudanças no panorama científico do mundo são reveladas na análise da produção dos quatro países do Bric desde 1981.

Segundo o Sr. Wilsdon, três fatores principais orientam a pesquisa chinesa. Primeiro é enorme investimento do governo, com aumentos de financiamento muito acima da taxa de inflação, em todos os níveis do sistema das escolas até a investigação de pós-graduação.

Em segundo lugar está o fluxo organizado de conhecimentos da ciência básica para aplicações comerciais. O terceiro é a maneira eficiente e flexível em que a China está aproveitando o conhecimento da sua vasta diáspora científica na América do Norte e Europa, tentando trazer de volta cientistas de carreira média estimulando-os passar parte do ano trabalhando no oeste e parte da China .

Embora as estatísticas que medem “papers” em revistas científicas revistas passem um ar de respeitabilidade, “a qualidade [na China] é ainda bastante mediana”, afirmou Adams. Mas isso não seria tão importante: “Eles têm alguns incentivos muito bons para produzir investigação de alta qualidade no futuro”.

Tal como a China, a Índia tem uma grande diáspora – e muitos NRIs( non-residents indians)(3) cientificamente treinados que estão voltando, mas eles vão principalmente para negócios e não para a pesquisa. “Na Índia, existe uma ligação muito fraca entre as empresas de alta tecnologia e a base de pesquisa local,” disse o Sr. Wilsdon. “Mesmo no Indian Institutes of Tecnology (IIT), a instituição de mais alto nível no sistema, existe dificuldade para recrutar professores qualificados”.

Um sintoma disso é o fraco desempenho da Índia nas comparações internacionais de padrõe universitários. O Asian University Rankings 2009, elaborado pela consultoria de ensino superior QS(4), revela que a melhor instituição superior indiana, o IIT de Bombaim, está na 30ª posição, 10 universidades da China e Hong Kong esrão em posição melhor.

Parte do problema acadêmico da Índia pode ser o domínio burocrático nas suas universidades, disse Ben Sowter, chefe da Unidade de Inteligência QS. Outro problema foi o de que as melhores instituições foram tão sobrecarregado com pedidos de candidatos a alunos e professores da própria Índia que eles não cultivaram perspectivas internacionais, essenciais para o padrão de universidades de ponta.

Isso parece prestes a mudar o Ministro de Recursos Humanos da Índia tem intensificado os esforços para construir laços com instituições nos E.U.A e Reino Unido.

Em contraste com a China, Índia e Rússia, cuja pesquisa tendem a ser fortes nas ciências físicas, química e engenharia, o Brasil se destaca na área da saúde, ciências da vida, da agricultura e investigação ambiental.

Da Rússia, o Sr. Adams disse: “A questão é a grande redução no financiamento da investigação e desenvolvimento na Rússia após o colapso da União Soviética”.
“Embora tenha havido um êxodo de muitas das estrelas em ascensão da investigação, há ainda um potencial de talentos lá.

“Não é do interesse do resto do mundo o êxodo para continuar, e precisamos co-financiar mais medidas para ajudar a investigação russa a tomar velocidade.”


(1) – NT. A Thonson Reuters é a maior agência internacional e notícias e multimídia. Aqui entre nós é mais conhecida como Reuters apenas.
(2)-NT. Sociedade nacional de ciências do Reino Unido
(3)-NT. Cidadãos da Índia não residentes nos países em que trabalham.

(4)-NT. Auto-definição da QS: A nossa ambição é ser líder mundial de mídia, eventos e empresa de software no domínio do ensino superior. A QS é o mais confiável on-line e off-line local de encontros para todos os candidatos, escolas e empresas com relação às carreiras de ensino e para decisões relacionadas com isso.


OBAMA BOTA O PÉ NO FREIO?

janeiro 26, 2010admin No Comments »
Massa+faz+manobra+espetacular+na+largada+do+GP+Hungria

Há semelhanças entre Brasil e EUA na relação futura entre déficit fiscal e poupança interna. Ambos os países acabarão dependendo do fluxo de capitais externos para financiar seu crescimento. Vulnarabilidades à vista.

A notícia abaixo foi divulgada pelo NYT. Segunda, 25.
Talvez quem defenda o gasto como única saída precise começar a colocar as barbas de molho.

O mundo não foi salvo tão rapidamente. Nem a fartura de gastos públicos está sendo a solução milagrosa. Pelo visto a economia funciona com coisas mais complexas do que adicionar demanda agregada, como, por exemplo, a confiança do agente econômico ou a necessidade de impor limites aos gastos.
Atalhos nem sempre são tão eficientes quanto pode parecer.

A atitude de Obama pode ser apenas uma ação precaucional, para trabalhar expectativas, condicionada ao ritmo do crescimento americano. Tipo “se o crescimento se mantiver consistente está na hora de botar o pé no freio”. Se não se mantiver continuamos a gastar.

Contudo, nem tudo são ouro e festa no paraíso.
De um texto que o Tony Volpon me enviou ontem “U.S. GROWTH IN THE DECADE AHEAD”, de Martin S. Feldstein, publicado pelo NATIONAL BUREAU OF ECONOMIC RESEARCH:
“These projected fiscal deficits could completely absorb all of the
private saving, leaving no national saving to finance additions to the capitalstock. If that happens, all net investment in plant and equipment and in housing would have to be financed by capital inflows from abroad.”
Enfim, o déficit fiscal americano poderá chegar a um número que neutralizará a poupança interna, levando à dependência de fontes externas de capital.
Eu acho que a gente já conhece alguma coisa muito parecida. Não é?
Demetrio Carneiro
Obama buscará congelar por três anos gastos com muitos programas domésticos.
Presidente Obama vai pedir um período de três anos de congelamento nos gastos em muitos programas nacionais e aumentos não superiores a inflação após isso, uma iniciativa destinada a sinalizar sua atitude séria sobre a redução do déficit orçamentário, comentáram funcionários graduados nessa segunda.

A VONTADE E O MUNDO REAL

janeiro 26, 2010admin No Comments »
0,,14445769,00A Secretaria do Tesouro Nacional divulgou hoje, terça, 26, o Plano Anual de Financiamento da Dívida Pública, além de prever uma possível expansão do estoque da dívida de mais de 15% com relação à 2009 ( de R$1,49 tri. para um máximo de R$1,73 tri. ), aponta uma clara estratégia de desviar a remuneração dos papeis em Selic (de 33,4% em 2009 para um mínimo de 30% em 2010) para outros índices. Já a estrutura dos vencimentos de curto prazo, 12 meses e de médio prazo, 36/48 meses não tem previstas significativas mudanças.

Além do crescimento acelerado da dívida, que pode ser debitado às políticas de expansão fiscal com objetivo de combater a redução da atividade econômica, antes, agora são outros os motivos, é interessante observar como vai se preparando o terreno para aumentos na taxa Selic.

Na semana passada já comentávamos a tentativa de utilização de instrumentos fiscais com vistas a tentar conter uma possível aceleração do ritmo inflacionário. Há uma enorme distância entre o discurso político das “vontades” e o mundo real da economia.
Evidentemente essa gestão trabalhará para esticar ao máximo a data a partir da qual a taxa Selic será alterada para cima, mas isso acabará acontecendo, pois a política eleitoral de expansão dos gastos induzirá a isso.
A atitude da Secretaria do Tesouro é apenas o reconhecimento do inevitável.
De qualquer forma é conveniente guardar essas informações de estoque, sua evolução e perfil. Serão úteis quando iniciar o verdadeiro debate sobre as necessidades de financiamento que serão geradas pelo Pré-Sal, Copa e Olimpíadas. Estamos só no começo.

Demetrio Carneiro

Íntegra da apresentação de 2010 do PAF


MERCADO INTERNO E FORMAÇÃO DE DÍVIDA

janeiro 25, 2010admin 2 Comments »
minor-scale-image1

A expansão da dívida das famílias, sem expansão da renda, tem limites. Não se constrói um sólido mercado interno com essas premissas. As políticas de atalho devem ser substituídas por políticas sustentáveis e coerentes com a nova economia que se desenha.

Deveria ser um princípio básico para economias saudáveis depender basicamente de seu mercado interno, exportando apenas excedentes e buscando no resto do mundo complementos para consumo ou investimento.
Seria assim num mundo idílico.
No mundo real, quando o mercado de trabalho não foi capaz de prover ganhos que sustentassem o crescimento do consumo, a classe média dos Estados Unidos e do Canadá foi se endividar tendo por base o seu local de moradia.
No Brasil, quando começou a ficar claro que o ciclo de commodities dos anos dourados estava chegando ao fim e a demanda externa poderia recuar, as políticas de governo foram na direção de estimular o que se podia controlar, a demanda interna. O atalho seria o aumento do consumo via crédito.
Ainda não se escuta falar em políticas substanciais de geração de emprego qualificado e com sustentação, se é que se escutará, mas todos acompanham atentamente o comportamento do crédito ao consumidor, conscientes de que há limites.
O debate sobre se e quando chegaremos aos limites físicos da capacidade potencial de produção interna tem fortes vínculos com a questão da retomada do processo inflacionário e, por via de consequência, com a promessa de “lutar” contra altas taxas de juros, nessa altura promessa do governo, mas também da oposição.
Então monitorar o processo de uma possível retomada inflacionária passou a ser questão relevante. Talvez, já que também deveria ser relevante para o debate político, fosse interessante trazer também para o debate os efeitos da estratégia de atalho para fortalecer a demanda interna. Certamente, expandir consumo via formação de dívida das famílias não é exatamente uma trilha que vai rumo ao infinito.

Dívidas no cartão de crédito explodem
Segundo dados do Banco Central, o total de dívidas no cartão de crédito cresceu quase 20% em 2009 e chegou ao valor inédito de R$ 26,3 bilhões em dezembro do ano passado, o dobro do visto há três anos.

Leia mais.


TIRO NO PÉ

janeiro 24, 2010admin No Comments »
tiro-no-peOs defensores da dupla nada dinâmica “+Estado/+Gastos” insistem em ignorar o simples fato do caráter altamente regressivo da carga tributária brasileira. Essa leitura liga diversos economistas atualmente. A crise econômica e o papel do Estado na redução do seu impacto e na retomada do crescimento econômico foram potentes estímulos para a volta das propostas econômicas que dão ao tamanho do Estado e sua capacidade da gasto preponderância. Evidentemente gastar mais significa tributar mais.

Pesquisa divulgada domingo, 24, no Estado de São Paulo mostra com bastante clareza que a altíssima carga tributária brasileira já chegou à percepção dos eleitores. Certamente vai gerar muito debate, pois desmonta muitas lógicas eleitorais.

Segunda a matéria “pesquisas indicam que 7 em cada 10 brasileiros defendem redução de impostos e não de juros para gerar empregos”. Mais “67% das pessoas com renda familiar de até R$465,00 dizem preferir um presidente que reduza os impostos dos alimentos para que se compre comida mais barata a um que aumente o Bolsa-Família – opção de 32% dos entrevistados.”

Deve haver no passado desse Blog mais de uma dezena de posts tratando dessa questão do caráter regressiva da carga tributária e da percepção das pessoas. Agora a pesquisa vem confirmar.

Forçar o debate para o lado do “somos todos iguais, somos todos contra os juros” (quem não é?), sem mostrar claramente que existe um modelo de Estado que está relacionado com um específico modelo de desenvolvimento e que esse modelo de Estado implica sempre em mais tributação parece não ser a melhor estratégia. Alguém pode estar dando um tiro no pé.

Demetrio Carneiro

Eleitor pobre quer corte de tributos

A elevada carga tributária é apontada pelo eleitor de baixa renda como o maior empecilho para a geração de emprego e o aumento do consumo no País. Sete em cada dez brasileiros defendem a redução dos impostos, e não dos juros, como forma de gerar empregos – 65% aceitam menos programas sociais, como o Bolsa-Família, se a contrapartida for reduzir tributos para derrubar os preços.

Leia mais


VENEZUELA: COMO NÃO SAIR DA CRISE

janeiro 23, 2010admin No Comments »
hugo_chavezNão acho que haja muito o que comentar.
Devido principalmente ao péssimo serviço de gestão da máquina pública e seu poderes, a economia venezuelana entrou em parafuso.
A solução da crise econômica vem pela via de mais intervencionismo.
Não tem nada a haver com luta contra a pobreza ou pelo socialismo. É incompetência misturada com fascismo.
Demetrio Carneiro

Em tempo recorde, a Assembleia Nacional venezuelana, dominada quase totalmente por partidos que apoiam o presidente Hugo Chávez, aprovou na quinta-feira à noite uma reforma da lei sobre expropriações que tem como objetivo dar valor legal à estatização da rede franco-colombiana de hipermercado Êxito.

Pela nova norma, apresentada pelo Instituto de Defesa das Pessoas no Acesso a Bens e Serviço (Indepabis), uma espécie de agência reguladora de expropriações vinculada ao Executivo, a expropriação de qualquer bem poderá ser efetuada sem que o Parlamento declare sua condição de “utilidade pública”.


A NOITE DOS GATOS PARDOS

janeiro 22, 2010admin No Comments »
GATOS NOITEUma nota do Blog do Noblat, com base em matéria d’O Globo, “Governo se arma contra a inflação”, mostra um pouco como se dá o debate econômico nesse momento pré-eleitoral.
Preocupado com o que nega veementemente, uma possível alta da inflação e procurando não recuar da posição de não aceitar o aumento da taxa de juros, o governo vai pelo caminho criativo e decide substituir a política monetária pela política fiscal no combate ao aumento de preços.
A capacidade das políticas fiscais como as propostas, que envolvem renúncia fiscal e importação são evidentemente de curto prazo e visivelmente se destinam a fins eleitorais. Ficaria muito estranho depois de tantas falas o BC aumentar a taxa de juros. Assim Dilma poderá seguir na mesma linha de bater nos juros “altos” como se isso não tivesse nada a haver com a própria política econômica praticada pelo governo.
Certamente o discurso-que-atrai-as-esquerdas, o anticapitalismo básico da proposta de crítica ao rentismo como se ele fosse a causa e não a conseqüência continuará na ordem do dia.

Demetrio Carneiro


janeiro 18, 2010admin No Comments »

the-day-after-tomorrow-flood-new-york-cityO texto abaixo é do César Maia e foi publicado hoje em seu ex-blog.
Diversas questões interessantes estão postadas ai, mas gostaria de ressaltar duas:

A “estratégia de saída da crise”
A que foi adotada por nosso governo foi voltada para o gasto como forma de manter a estrutura de poder político. CM chama a atenção da inexistência de qualquer preocupação de investimento na competitividade, já que certamente existe uma queda na demanda mundial que só se resolve buscando que indústria e serviços sejam mais competitivos.
Certamente essa preocupação não esteve no horizonte de nossas autoridades já que a aposta são as commodities com todas as conseqüências boas ou más. Atualmente a “bolha” de investimentos especulativos vem sustentando preços mais elevados, embora a demanda real não justifique. Logo ou porque politicamente não será possível manter tanta liquidez à custa dos governos – vide Obama – ou porque outros segmentos poderão estar mais atrativos e chega a hora de realizar lucros ou porque a economia chinesa pode não manter seu fôlego de crescimento contínuo, essa bolha pode colapsar repetindo outros tantos ciclos vividos por nossa economia. Ler Jorge Amado pode ser bem instrutivo nessas horas;

O “Day after”
Nem sempre o dia seguinte precisa ser resultado de situações de crise climática. As crises econômicas também dão bons roteiros para o Day after.
No caso CM chama atenção para o resultado da irresponsabilidade e a aventura eleitoreira. Certamente elas trarão um custo e ele será pago em termos de dificuldades que afetarão a qualidade de vida das pessoas, mas também será sentido em medidas mais fortes que acabarão impactando as avaliações da gestão pública e poderão sim levar a uma comparação “antes e depois”.
O “remédio” para isso não resolverá a crise ou a expectativa de baixa de conceito na opinião pública, mas certamente ele existe e estará em que a oposição seja realmente capaz e eficiente em organizar um programa de governo, hoje, e mais tarde uma ação de governo que traga para a cena propostas que mudem verdadeiramente o projeto de desenvolvimento e não sejam apenas mais um repeteco do mesmo de sempre, melhorado pela estabilidade tão criticada e as oportunidades de um crescimento mundial pontual.
Nosso projeto de desenvolvimento tem que ser capaz de responder aos problemas ambientais, sociais mas também tem que ser capaz de responder às necessidades de quebrar esse perfil secular de dependência de um perfil de inserção no mundo que sempre acaba gerando mais e mais crescimento medíocre.

Demetrio Carneiro

BRASIL SAI MUITO MAL DA CRISE ECONÔMICA!

1. As ações implementadas pelo governo brasileiro para enfrentar a crise produziram resultados numericamente positivos em curto prazo, mas comprometeram a estabilidade econômica e financeira em médio prazo. Na medida em que os números de 2009 vão sendo abertos, fica a sensação de que ao se empurrar os problemas para frente, pode até haver fôlego para terminar 2010, mas a herança para o próximo governo será pesada.

2. Mesmo sabendo que a demanda agregada mundial na saída da crise viria reduzida pelo enxugamento dos derivativos e a crise no crédito, e que por isso o gasto público compensatório deveria atuar sobre os elementos da competitividade brasileira, especialmente a recuperação e ampliação da infraestrutura econômica (aeroportos, portos, ferrovias, rodovias, energia, pesquisa…). Mas o que se viu foi o facilitário dos gastos correntes, que afagando o eleitor em curto prazo, vão gerar sacrifícios em médio prazo.

3. Com isso, a taxa de desemprego foi sustentada as custas de um aumento do desemprego de maior profissionalização, compensado pelo emprego de menor renda e qualificação. De forma a sustentar o emprego nos setores onde o “sindicalismo cutista” está mais presente, impostos desses setores foram reduzidos, afetando os preços relativos em favor do consumo de bens supérfluos e desestimulando a poupança.

4. A consequência foi uma forte baixa na taxa de poupança nacional e, portanto, nos investimentos. A capacidade de crescer em longo prazo foi debilitada. O déficit público nominal (incluindo os juros), que é o que interessa em nível internacional, dobrou e fecha o ano em mais que 4% do PIB. Enquanto isso, se disfarça a dívida pública líquida com empréstimos intragoverno, em direção aos bancos estatais e, portanto, a dívida pública bruta continuou crescendo.

5. O setor externo foi seriamente afetado, transformando, em um ano, a economia brasileira em primário-exportadora pela perda de competitividade do setor industrial. O caso da China é o mais eloquente por ter se transformado no principal parceiro comercial junto com os EUA. A pauta de exportações para a China é de 80% de produtos primários. E as relações comerciais com os EUA se deterioram elevando o déficit e, pela primeira vez em muitos anos, invertendo a proporção de commodities, que ultrapassou os produtos industrializados.

6. O déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, em 2009, de 20 bilhões de dólares, será dobrado para 40 bilhões de dólares segundo os especialistas. A inflação comemorada como a mais baixa em alguns anos, deve ser ponderada por suas razões. A crise e a recessão já seriam fator suficiente para a redução do nível anualizado de inflação. Mas sobre isso, o real fortemente valorizado, acentuou a tendência, gerando uma falsa comodidade no curto prazo contra pressões inflacionárias muito maiores a partir de 2010.

7. A redução da taxa de juros -vis a vis uma conjuntura recessiva- foi módica, sinalizando -por um lado- a preocupação com a artificialidade dos vetores antiinflacionários descritos e, por outro lado, a necessidade de manter o afluxo de capital externo, engordando as reservas, empurrando a bolsa de valores, mas sinalizando problemas -tipo bolha- no momento em que o mercado antecipar a artificialidade dos números.

8. Se não bastasse, o ano termina com um golpe sobre a segurança jurídica em atos governamentais de caráter político. O paciente foi colocado num respirador artificial e passa bem. Mas a alimentação do mesmo tem vida curta. Caberá ao próximo governo fazer o jogo da verdade, sacrificando sua imagem, e dando a sensação, para a opinião pública média, que o anterior iria melhor. Se isso não ficar evidente ainda em 2010 (como ocorreu em 1998), quem sai estará satisfeito e aguardando 2014. Mas se ocorrer no final de 2010, ou for assim percebido em 2011, o tombo do alto de sua popularidade poderá ser muito grande.


O PONTO FORA DA CURVA

janeiro 15, 2010admin No Comments »

2045083128_54ce030776O texto de Dionísio Dias Carneiro, abaixo e na íntegra, foi publicado hoje no Estado de São Paulo.


Inicialmente ele assume com muita clareza a questão das políticas de estabilidade econômica no Brasil.
O tempo que Lula está perdendo em querer entrar para a história como Pai dos Pobres II, o pós-Getúlio, com iniciativas tipo Copa, Olimpíada, Consolidação das (dele) Leis Sociais, seria mais bem empregado se ele se dedicasse na consagração desse modelo macroeconômico que trouxe ao país condições de um crescimento estável.
A lógica do Estado forte e do gasto como instrumento de dominação e subordinação não deixa, a ele o boa parcela de nossos “progressistas”, perceber como o regime de baixa inflação contribuiu para a manutenção do poder de compra, no longo prazo, das classes menos favorecidas. No discurso tudo o que se faz é para os pobres, mas as práticas são bem outras.

Na parte final vale o comentário sobre o reflexo de falas como a do Senador Sérgio Guerra e outros companheiros tucanos que criticando as altas taxas acabam justamente dando elementos, via instabilidade de regras futuras, para que se mantenham altas ou subam. No caso vale aquele ditado sobre a boa vontade…

Demetrio Carneiro


Regra de Taylor e aumento de juros

Dionisio Dias Carneiro


No mundo, discutem-se as estratégias de saída para as políticas expansionistas que foram aplicadas em todos os países e isso aumenta a incerteza. No Brasil, a política monetária contracíclica não desestabilizou as expectativas inflacionárias e isso diminuiu a incerteza. Essa poderia ser a consagração do regime de política macroeconômica que completou dez anos de sucesso no Brasil. Na economia internacional, a estratégia de metas mostrou suficiente flexibilidade para sobreviver em diferentes países sob circunstâncias históricas bem diversas.

Parte do sucesso decorre do fato de não ter sido um modelo de política monetária “imposto” de fora, mas resultado de uma evolução teórica e prática que permitiu adaptações a diferentes ambientes institucionais e políticos. Sobretudo, permitiu que governos de diferentes matizes ideológicos pudessem cumprir seus programas sem abrir mão da governança monetária. O reconhecimento da continuidade e da seriedade do trabalho do Banco Central (BC) sob Henrique Meirelles resultou em sua nomeação para o conselho diretor do Banco de Compensações Internacionais (BIS). No ambiente pré-eleitoral, isso vale mais do que as desmoralizadas avaliações de risco produzidas pelas agências especializadas.

A convergência de regimes monetários foi antecipada por John Taylor, de Stanford, que mostrou que, independentemente do que diziam seus porta-vozes, bancos centrais razoáveis seguiam na prática uma regra simples: metas para as taxas de juros no mercado de reservas bancárias determinadas pelos desvios entre a inflação esperada e a desejada e pelos desvios entre o PIB projetado e o nível considerado não inflacionário.

Na conferência anual do Fed Kansas City em 2007, John Taylor mostrou que os desvios da taxa de juros praticada pelo Fed com respeito a uma regra de Taylor estimada para os EUA confirmavam o ponto de vista de que a política monetária foi excessivamente frouxa entre 2002 e 2005. A diferença entre a taxa efetiva e a taxa calculada pela regra de Taylor seria a maior desde os anos 70, quando foi gerada a inflação americana, só dominada pela frieza de Paul Volcker. Na conferência anual dos economistas americanos deste ano, Ben Bernanke racionalizou a política de Greenspan de 2002-05, questionou o uso da inflação observada na regra de Taylor, defendendo o uso das projeções do Fed, que conduziria a uma política mais previsível, e arguiu que a evidência internacional não mostrava correlação entre bolhas imobiliárias e política monetária frouxa. Abriu espaço para o Fed agir quando os preços de ativos (inclusive de imóveis) sinalizarem perigo, o que não é consensual.

Nos EUA, os economistas estão divididos entre os riscos de reverter muito cedo e abortar a recuperação incipiente e os riscos de uma recuperação desorganizadora, inflacionária e de curta duração. Não faltam argumentos para os dois lados. Isso aumenta as incertezas em torno da dívida pública, prejudica o investimento privado e contamina os mercados cambiais.

No Brasil, a taxa Selic está abaixo da calculada pela regra de Taylor usada por nós na Galanto, o que explica as dúvidas entre os especialistas sobre o futuro das taxas de juros. Mas as curvas de juros mostram um prêmio que estatisticamente pode ser atribuído à incerteza quanto ao futuro do regime, mais do que à taxa esperada de juros.

A inflação, tanto a passada quanto a esperada para 12 meses, está abaixo da meta. A evidência mostra: 1) o BC tem seguido uma regra de Taylor; 2) a Selic tem sido maior do que a calculada pela regra quando a inflação projetada é maior do que a observada em 12 meses; 3) os desvios entre expectativas e observações têm diminuído desde 2004; e 4) o BC não mudou seu comportamento na recessão e tem reagido à inflação e ao nível de atividade de forma coerente. O que houve foi o maior uso de instrumentos diretos de injeção compensatória de liquidez e de política fiscal expansionista.

No ambiente eleitoral, alguns bem-intencionados argumentam que o Banco Central aumente os juros o quanto antes para preservar a credibilidade. Esse argumento, questionável, tem provocado intensa pressão especulativa sobre os juros futuros. A entrevista do presidente do PSDB na semana passada mostra que há riscos concretos de mudança de regime, independentemente do que faça o Comitê de Política Monetária (Copom). Portanto, os prêmios podem aumentar sem que isso seja razão para o BC “seguir a curva”.

janeiro 14, 2010admin No Comments »
criancas e bebes (34)Já é fato sabido o envelhecimento da população brasileira. Também já é fato sabido o impacto que irá gerar na questão da Previdência e sua reforma que jamais acontece.
O que muitos ainda não tomaram conhecimento é de um outro problema demográfico que começa a virar assunto no debate econômico do desenvolvimento e deveria nos interessar de perto: A chamada “Onda Jovem”.

Por peculiaridade nossa e de outros países “emergentes”, provavelmente ligada à redução da mortalidade infantil, estamos vivendo um momento de crescimento relativo de nossa juventude. Claro, mais à frente, em talvez 20 anos, esse mesmo crescimento relativo acabará impactando a impactada previdência. Mas o fato é que esse crescimento especificamente está fora da linha.

A notícia boa é que teremos um incremento na mão-de-obra disponível, o que viabilizará um processo de crescimento mais acelerado. Digamos que faltará menos mão-de-obra. Isso já foi notado pelo estrategistas ligados ao mercado financeiro e aparece como ponto positivo na definição de destinos de investimento.
A má notícia é que teremos um incremento na mão-de-obra disponível. Evidentemente serão necessárias políticas públicas que acolham esse “a mais” num contexto em que elas mal conseguem acolher o que existe. Estamos falando de políticas públicas para “antes”, que tratem da qualificação(educação/capacitação/realocação) dessa mão de obra e políticas públicas para o “depois”, a Previdência feita de forma correta, não esta “coisa” que está ai. Mas também estamos falando de políticas públicas para o “durante” que é o emprego qualificado que forneça renda e estabilidade. Não a estabilidade que a lei forçou, mas a estabilidade que vem do crescimento sustentado da economia.

Não esquecer que foi um fenômeno semelhante, o “baby boom”, no pós guerra americano que sustentou o crescimento acelerado dos fundos de pensão, que acabaram se tornando um dos principais pontos de alavancagem da economia americana.

Qual programa de governo se habilita?

Demetrio Carneiro